Quarta, 16 Novembro 2011 20:07

Jornais do Brasil dão pouco espaço aos céticos das mudanças climáticas Destaque

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Por Carlos Henrique Fioravanti* Um estudo da Universidade de Oxford sobre a cobertura jornalística sobre mudanças climáticas em seis países indica que jornais do Brasil, França, Índia e China têm dado menos espaço aos céticos das mudanças climáticas que a imprensa no Reino Unido e nos Estados Unidos.
Os dois jornais brasileiros selecionados (Folha de São PauloEstado de São Paulo) foram os que apresentaram a menor quantidade de reportagens, artigos ou editoriais citando ou mencionando vozes céticas entre os seis países examinados. A inexistência de grupos de lobby, a preocupação do setor agroexportador com o impacto das mudanças climáticas, a vanguarda do país na pesquisa e uso de biocombustíveis, a baixa credibilidade científica dos céticos e a falta de tradição de debates científicos amplos no Brasil ajudam a explicam esse resultado. Mais de 80% das vezes em que as vozes céticas são citadas foram em reportagens, artigos ou editoriais no Reino Unido (todos os dez jornais nacionais foram examinados) ou nos Estados Unidos (New York Times, Wall Street Journal). Nos Estados Unidos, o ceticismo climático emergiu principalmente nos editoriais e nas páginas de opinião do Wall Street Journal. O estudo, Poles Apart – The international reporting of climate change, publicado em novembro de 2011, mostra que 44% de todos os artigos que incluíram vozes céticas foram em páginas de opinião e editorias, em comparação com as páginas de notícias. No Reino Unido e nos Estados Unidos os jornais politicamente alinhados à direita deram mais espaço que os de esquerda.  Um grupo de pesquisadores coordenado por James Painter, do Reuters Institute for the Study of Journalism (RISJ) da Universidade de Oxford, examinou mais de 3.000 artigos de dois diferentes jornais em cada país durante dois períodos diferentes. Em cada país (exceto China), os jornais foram selecionados por representar visões políticas divergentes. Os períodos estudados foram fevereiro a abril de 2007 e meados de novembro de 2009 a meados de fevereiro de 2010 (um período que incluiu a reunião das Nações Unidas sobre mudanças climáticas em Copenhagen e o “Climagate”). O levantamento evidenciou uma ligação entre o espaço dados aos céticos e a visão política dos jornais apenas no Reino Unido e dos Estados Unidos, mas não nos outros países examinados – Brasil, França e Índia. Na Índia, poucas vozes céticas emergiram e houve pouco ou nenhuma diferença no espaço dados aos céticos entre os dois títulos de jornais selecionados.  Em todos os países, os politicos representaram cerca de um terço de todas as vozes céticas citadas ou mencionadas. Os jornais do Reino Unidos e dos Estados Unidos citaram mais políticos que os dos outros países. O estudo define como vozes céticas as dos que não acreditam que a temperatura média global esteja subindo ou questionam a influência dos seres humanos no aquecimento global. O conceito de cético inclui os que duvidam do ritmo e da extensão das mudanças climáticas ou da necessidade de medidas urgentes ou de gastos governamentais para combater os efeitos das mudanças do clima. Fonte (adaptado de): http://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/about/news/item/article/poles-apart-the-international-repo.html

*Graduado em Jornalismo pela Universidade de São Paulo, com especialização pelo Reuters Institute for the Study of Jornalism da Universidade de Oxford e doutorado em Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas. Foi o responsável pelo levantamento do estudo Poles Apart no Brasil.

 

Lido 3203 vezes Última modificação em Sexta, 13 Fevereiro 2015 17:51